Publicidade

Católica brasileira sobreviveu 60 anos comendo só hóstia? Ciência investiga

Católica brasileira sobreviveu 60 anos comendo só hóstia? Ciência investiga 



Uma mulher de Minas Gerais teria sobrevivido sem comer, beber ou dormir, alimentando-se apenas de hóstias — fenômeno agora estudado cientificamente pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).

O que aconteceu

Universidade investiga caso de mineira que teria vivido 60 anos alimentando-se apenas de hóstias. A UFJF conduz uma pesquisa sobre Floripes Dornellas de Jesus, leiga católica que morreu em 1999 e é reconhecida pela Igreja como serva de Deus. O estudo, realizado pelo Nupes (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde), busca examinar com rigor científico o fenômeno descrito como inédia eucarística — quando uma pessoa sobreviveria apenas com a comunhão.

Lola teria passado mais de 60 anos acamada após um acidente na adolescência. Segundo a investigação, ela viveu nesse estado em Rio Pomba (MG) após uma queda que a deixou paraplégica. Durante esse período, relatos afirmam que ela não comia, não bebia nem dormia, alimentando-se apenas de uma hóstia consagrada por dia.

Pesquisa científica

Estudo sobre Lola nasceu do interesse do Nupes em investigar experiências espirituais com rigor científico. "O Nupes existe há quase 20 anos, e nosso interesse é estudar experiências espirituais com abertura, respeito e rigor", explica o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, coordenador do núcleo. Ele afirma que já conhecia a história de Lola "há muito tempo, especialmente pelo pessoal mais velho da região", mas decidiu investigá-la após saber que o médico Cláudio Bomtempo, professor em Barbacena, havia sido seu médico e mantinha registros e testemunhos sobre o caso.

Projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e reúne dezenas de entrevistas e documentos históricos. Após a aprovação, a equipe iniciou a coleta de depoimentos de familiares, religiosos e testemunhas, além da busca por registros médicos e arquivos históricos ligados à vida de Lola.

Estudo sobre Lola adota abordagem científica e não parte de premissas religiosas. "Não há nenhum compromisso a priori com resultado algum. Nosso compromisso é investigar com rigor e abertura", diz Alexander Moreira-Almeida. Segundo ele, a equipe busca confrontar os relatos sobre ausência de alimentação, sono e excreção com possíveis explicações fisiológicas ou psicossomáticas.

Hipóteses científicas incluem distúrbios alimentares e possibilidade de fraude. O psiquiatra Alexander Moreira-Almeida explica que a equipe trabalha com diferentes linhas de investigação, entre elas a hipótese de anorexia nervosa com motivação espiritual ou um eventual engano coletivo. "Dentro do conhecimento atual da fisiologia, nós desconhecemos mecanismos que permitam manter uma pessoa sem ingestão calórica, proteica e vitamínica por tanto tempo. É preciso muita prudência e rigor nesse tipo de investigação", afirma.

O limite do corpo humano

Caso de Lola desafia o que se conhece sobre o corpo humano, apontam pesquisadores. Professor titular de gastroenterologia da UFJF e coautor do estudo, Julio Chebli integra a equipe que investiga o fenômeno e diz ser "muito improvável que o organismo humano mantenha suas funções vitais sem ingestão de água e nutrientes ao longo do tempo". Segundo o médico, há poucos registros semelhantes, e "a maioria acabou identificada como fraude".

Ausência de ingestão e excreção levaria rapidamente à falência de órgãos. Chebli explica que, do ponto de vista fisiológico, a interrupção prolongada dessas funções causaria desidratação, desnutrição e colapso orgânico, levando o corpo à morte em poucos dias. "O que fazemos agora é investigar o relato — entrevistar pessoas que conviveram com ela, coletar registros e tentar comprovar ou não a alegação de inédia", afirma.

Estudo defende aplicação do método científico à investigação de fenômenos espirituais. Mesmo reconhecendo a improbabilidade fisiológica do caso, o professor considera que a pesquisa representa um avanço. "Aplicar o rigor da ciência a pesquisas na área da espiritualidade é o caminho para tornar os achados confiáveis e reprodutíveis", afirma.

O processo de canonização

Arquidiocese de Mariana prepara abertura oficial do processo de beatificação de Lola. O caso é acompanhado pela Igreja em Minas Gerais, que pretende formalizar o reconhecimento de Lola como serva de Deus. O padre Rodney Francisco Reis da Silva, nomeado postulador da causa em abril de 2025, confirmou que o processo foi autorizado em 2005 pelo Vaticano, a pedido de dom Luciano Mendes de Almeida, mas ainda não foi oficialmente aberto.

Igreja aguarda instalação do tribunal eclesiástico para dar início à fase diocesana. "O processo ainda não teve o seu início canonicamente falando, uma vez que não foi instaurado o tribunal eclesiástico para a fase diocesana. Isso vai acontecer muito brevemente, mas ainda não há", explicou o sacerdote.

Pesquisa da UFJF pode contribuir para credibilidade do processo de beatificação. Segundo o padre Rodney, o estudo será "um contributo de grande valia" para a Igreja, pois "traz informações do ponto de vista científico e médico a respeito desse fenômeno vivido pela serva de Deus Lola".

Entre a fé e a ciência

Estudo volta a colocar em foco as fronteiras entre o milagre e a explicação científica. Para Moreira-Almeida, a investigação é um exercício de "humildade intelectual". "Não podemos dizer a priori que algo é impossível. O ceticismo verdadeiro é aquele que suspende o julgamento até termos evidências suficientes", afirma.

Caso de Lola pode ampliar o diálogo entre ciência e espiritualidade. Segundo o psiquiatra, estudar a vida de uma pessoa em processo de canonização ajuda a compreender a dimensão espiritual de suas experiências. "É sempre interessante poder acompanhar em profundidade uma pessoa em processo de canonização. Além da inédia eucarística, queremos entender a dimensão espiritual de sua vida, as experiências místicas que ela relatava e o impacto delas na comunidade", afirma.

Quem foi Lola

Lola nasceu em Mercês (MG) em 1913 e viveu quase toda a vida em Rio Pomba, onde um acidente a deixou paraplégica aos 22 anos. Quando tinha cerca de dois anos, mudou-se com a família para a cidade da Zona da Mata mineira, onde permaneceria até morrer, em 1999. A queda de uma jabuticabeira marcou o início de um período de reclusão e intensa prática religiosa. O relato biográfico foi publicado em texto do advogado Márcio Antônio Deotti Ibrahim, no perfil oficial dedicado a ela nas redes sociais.

Após o acidente, Lola passou a relatar experiências místicas e a afirmar que vivia apenas da comunhão diária. Registros da época indicam que, em 1948, o pároco local, padre Gladstone Galo, autorizou uma observação contínua feita por senhoras do Apostolado da Oração, que se revezaram em turnos de oito horas durante vários dias. O grupo relatou não ter presenciado qualquer ingestão de comida ou bebida no período.

Devoção ao Sagrado Coração de Jesus transformou a casa de Lola em destino de romarias. A partir dos anos 1940, fiéis e religiosos passaram a visitar o imóvel em Rio Pomba (MG) em busca de intercessão e conselhos espirituais. Em 1958, o bispo de Mariana restringiu as visitas ao clero, alegando preocupações com o estado de saúde de Lola e o número crescente de peregrinos. Nos anos seguintes, ela viveu em recolhimento e continuou a receber pedidos de oração por cartas, mantendo a correspondência até pouco antes da morte.

Fonte: UOL

Postar um comentário

0 Comentários