'Menores não tinham dinheiro nem para tomar sorvete': o que revela investigação do MP contra Hytalo por exploração infantil | Brazil News Informa

Eles não apresentaram resistência no momento da prisão. Na casa, além de Hytalo e Israel, havia oito pessoas que não são alvos da investigação, entre eles assessores. Ao todo, oito aparelhos celulares foram apreendidos.
O Ministério Público aponta que Hytalo e Israel promoviam cenas, vídeos e fotografias que evidenciam a exploração de crianças e adolescentes em um condomínio de Bayeux, na Região Metropolitana de João Pessoa. O órgão fez um pedido de detenção preventiva para ambos com base no Estatuto da Criança e do Adolescente, o que foi acatado pela Justiça na quinta-feira.
Sexualização precoce
Segundo os investigadores, Hytalo centralizava seu conteúdo em um grupo de jovens (chamados de “crias”, “filhas” e “genros”), muitos dos quais menores de idade, que residiam em uma mansão sob sua tutela informal, enquanto eram organizados diversos “reality shows” exibidos online em que era estimulada a sexualização precoce. O influenciador daria apoio financeiro aos menores e também a seus pais.
“O acusado pratica ‘adultização’ de adolescentes, consistente na indução precoce a comportamentos e performances sexualizadas, empregada como estratégia deliberada de engajamento digital e rentabilização econômica. Ainda que sob aparência de lazer, tal conduta traduz utilização indevida da imagem de menores com finalidade lucrativa, configurando exploração sexual e trabalho infantil artístico irregular, uma vez que o conteúdo produzido é monetizado em plataformas digitais” afirma, no processo, que está sob sigilo e foi obtido pelo GLOBO, a promotora Ana Maria França Cavalcante de Oliveira, da 2ª Promotora de Justiça de Bayeux.
Ainda de acordo com o MP, a situação se prolonga por anos e há indícios de que o investigado “se aproveita da vulnerabilidade social e emocional de algumas crianças e adolescentes, induzindo-os a participar de poses, coreografias e danças erotizadas para divulgação nas redes sociais, mediante promessa de recompensas”.
“Ele retira as crianças das famílias originárias sob a pálida e falsa promessa de melhoria de vida e criação de oportunidades, trazendo participantes de suas cidades, separando-os dos pais para ficarem em seu ‘circo macabro’, e depois excluindo-as da mesma forma que as trouxe, simplesmente as colocando em um carro e encaminhando de volta”, acrescenta a promotora.
As condutas de Hytalo não se limitavam à exploração da imagem e da sexualidade dos jovens. Em depoimento ao Ministério Público do Trabalho, um policial militar que fez serviço de segurança para os dois acusados afirmou que recebia dinheiro em sua conta oriundo de plataformas de apostas que patrocinavam o influenciador, e que Hytalo não remunerava as mulheres que serviam como “vitrine” para seu negócio.
“Hytalo fica com todo o dinheiro dos contratos de publicidade fechados pelos adolescentes e demais integrantes da turma. Além disso, eles não possuíam cartão de crédito e não recebiam qualquer dinheiro do influenciador. Tudo era pago por Hytalo e os menores não tinham dinheiro nem para tomar um sorvete na esquina”, disse o policial aos promotores do MPT paraibano.
Para dar ar de legalidade em seus atos, o influenciador paraibano dizia ter a tutela dos jovens, mas o máximo que conseguia era a autorização verbal dos pais deles. No condomínio em que vivia na Paraíba até fugir para São Paulo, Hytalo foi multado diversas vezes por dirigir moto sem capacete e por levar na garupa adolescentes seminuas. “Todos esses incidentes foram explicitamente gravados e postados em sua rede social com o objetivo de atrair maior visibilidade”, afirma a acusação.
Para os promotores, caso solto, Hytalo poderia destruir provas e fugir do estado e até mesmo do país. Ontem, o delegado Fernando Davi, do Departamento de Investigações Criminais (Deic), reafirmou à imprensa que havia esse risco:
— Estavam escondidos aqui no estado de São Paulo. A suspeita é que eles estavam sim tentando se evadir e já sabiam que seria expedido o mandado de prisão. O mandado de prisão foi expedido na madrugada de ontem (quinta-feira), na verdade. Então parece que eles já tinham essa noção.
O advogado de Hytalo e Israel, Felipe Cassimiro, disse que os dois não estavam tentando se esconder e já estavam em São Paulo muito antes do mandado de prisão ser expedido pela Justiça da Paraíba. A defesa alega que o influenciador é inocente e anunciou que entraria com um pedido de habeas corpus após ter acesso ao conteúdo da decisão judicial.
— Eles já se encontravam em São Paulo bem antes do início de toda essa trama que vem sendo amplamente divulgada, e a gente tem provas nesse sentido. Os delegados disseram que eles vieram ontem (quinta-feira) para cá, não procede. A gente está lidando com influenciadores digitais de grande porte, pessoas que têm compromissos em vários estados, sobretudo em São Paulo. Ele está há mais de um mês aqui — afirmou.
Busca na véspera
Na quarta-feira, a Justiça da Paraíba autorizou a realização de buscas no endereço do influencer em João Pessoa. A decisão permitiu que fossem apreendidos celulares, computadores e outros equipamentos usados em gravações feitas pelo paraibano. As diligências foram realizadas horas depois, mas Hytalo não estava no imóvel. A casa estava vazia, mas a máquina de lavar foi achada ligada. Segundo o juiz Adhailton Lacet, as equipes que cumpriram o mandado foram informadas pelo condomínio de Hytalo que “ele saiu com bastantes equipamentos” em um carro antes da chegada dos policiais.
No dia anterior, a Justiça da Paraíba já havia determinado o bloqueio do acesso de Hytalo às redes sociais e proibiu o influenciador de ter contato com os adolescentes citados nos processos.
Hytalo e Israel estão presos na sede do Deic, em São Paulo. A audiência de custódia de ambos deverá ocorrer hoje. A data da transferência dos acusados para a Paraíba ainda não foi confirmada pela polícia paulista.
A prisão do influenciador ocorreu dias após um vídeo denunciando o caso de Hytalo, e de outros produtores de conteúdo acusados de lucrar com a exploração de crianças e adolescentes nas redes sociais, atingir milhões de visualizações no YouTube e mobilizar parlamentares a discutirem novas regras para a proteção de menores na internet. Ontem, a equipe jurídica de Felca “parabenizou as autoridades pelo andamento das investigações e o efetivo combate à adultização e exploração da imagem e dos corpos de crianças e adolescentes”.
Fonte: O Globo
0 Comentários